sexta-feira, 11 de agosto de 2017

MONITORIA DA DISCIPLINA: ESTUDO DOS ESPAÇOS AGRÁRIOS NO BRASIL - UEPB/GUARABIRA.

extraída das redes sociais.
Por: Silvânia Félix de Lima¹ Daniele Ferreira Alves² e Belarmino Mariano Neto³

¹Aluna do curso de Geografia da UEPB/CH, silgeo_7@hotmail.com
²Aluna do curso de Geografia da UEPB/CH danialves6@yahoo.com.br
³ Orientador e professor da UEPB/CH, belogeo@gmail.Com.br


RESUMO:

O principal objetivo do projeto de monitoria da disciplina estudo dos espaços agrário urbano e industrial foi envolver o corpo discente mais diretamente com a realidade agrário, urbano, industrial do Brasil e da Paraíba, através do fazer geográfico e na elaboração de trabalhos de pesquisa que consigam responder as diferentes problemáticas da atualidade. Neste trabalho, estamos apresentando os primeiros resultados de nossa experiência como monitoras da disciplina. Temos como objetivo, apresentar as principais metas do projeto de monitoria e as vantagens que o projeto tem proporcionado tanto para nós monitoras, quanto para os alunos em geral. Iniciamos com um levantamento bibliográfico dos livros existentes na biblioteca da UEPB – Guarabira relacionados à disciplina. Feito o levantamento, levamos para os alunos as idéias principais dos autores de cada livro, e iniciamos discussões em sala visando despertar o interesse pela leitura, e ter esses livros como fonte de pesquisa para eventuais trabalhos. Estamos acompanhando as aulas semanalmente e auxiliando os alunos na elaboração de trabalhos e questões relacionadas aos conteúdos discutidos em sala. Podemos perceber o crescente interesse de discentes que nos procuram pedindo orientação para a elaboração de trabalhos, seminários e artigos para a disciplina, e até mesmo para apresentarem em encontros científicos. Como a disciplina é muito ampla, optamos em focar na Geografia Agrária como um dos principais campos de investigação geográfica.


LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO DOS LIVROS RELACIONADOS À QUESTÃO AGRÁRIA, EXISTENTES NA BIBLIOTECA DA UEPB-GUARABIRA.

IDÉIAS CENTRAIS DOS LIVROS:


NORDESTE: ALTERNATIVAS DA AGRICULTURA
ANDRADE, Manoel Correia de. Nordeste: alternativas da agricultura – Campinas/ SP: Papirus, 1988.

Este livro é dividido em quatro capítulos.
O primeiro capítulo trata da questão do capitalismo, e a consolidação do latifúndio no Brasil, e especialmente no Nordeste, explicando o sistema de propriedade e a formação do latifúndio no Nordeste, explicando o sistema de propriedade e a formação do latifúndio desde o início da invasão e ocupação do território brasileiro. Faz uma análise das causas da formação dos latifúndios na área úmida oriental do Nordeste, onde domina a cultura da cana-de-açúcar, enfatizando a implantação do pró-álcool na região.
O segundo capítulo, fala da agricultura nos brejos nordestinos, enfocando os contrastes em relação à caatinga sertaneja, tanto se tratando das paisagens, quanto no que se refere as formas de uso dos solos e o desenvolvimento da economia, considerando que há um grande contraste entre a agricultura desenvolvida nos brejos, e a agricultura desenvolvida em áreas de caatinga, onde há predomínio da pecuária, pegando como exemplos os brejos de Triunfo e Taquaritinga do Norte.
No terceiro capítulo, o autor faz uma caracterização física do Nordeste, mostrando a sua grande produção de uma série de produtos importantes para a economia nacional. De um lado, há áreas sujeitas a inundações, e do outro, há uma área que apresenta um clima seco e quente sendo freqüentemente assolado por grandes secas. Mostra, especialmente, de que maneira o poder público vem tratando do problema das secas.
No quarto capítulo, analisa criticamente as reais causas do problema da seca no Nordeste, enfatizando a ação da política de combate às secas desenvolvidas pelos grupos econômicos dominantes e com o apoio do próprio Estado.


“A terra e o homem no Nordeste”
ANDRADE, Manoel Correia de. A terra e o homem no Nordeste. 5ª ed. São Paulo: Atlas, 1986.

O primeiro capítulo comenta sobre o conceito de Nordeste, que ora é apontado como área das secas, pois desde a época colonial atrai a atenção do governo nos momentos de crise, ora como a área dos canaviais que enriquecem uma minoria em detrimento da população, e outras vezes é conhecido como a área subdesenvolvida ou das Revoluções Liberais. O autor analisa a delimitação da região nordestina, observando as condições naturais e diversificações regionais, onde a mais marcante é o clima. Faz uma síntese das quatro grandes regiões: Mata, Agreste, Sertão e Meio-Norte envolvendo suas principais características físicas e humanas.
Os segundo e terceiro capítulos tratam da propriedade da terra, e a mão-de-obra na Região da Mata, e do Litoral Oriental desde o início da colonização, e a relação dos colonizadores com a escravidão. Fala do desenvolvimento econômico e as relações de trabalho na segunda metade do séc. XVII, e no séc. XVIII, relacionados à cana-de-açúcar e sua lenta evolução, onde a cana-de-açúcar apesar de ser a “Senhora absoluta” das terras, abriu espaço para um concorrente de exportação: o algodão, que embora tenha sido vencido nas regiões úmidas, foi concorrente da economia açucareira durante alguns anos, falando também de algumas outras culturas, como: coco, arroz, cacau, e a relação da população com todas essas culturas.
O quarto capítulo fala da integração do Sertão à colonização portuguesa, o desenvolvimento da agricultura sertaneja em torno dos “currais”, onde o início do cultivo agrícola foi destinado a alimentar as pessoas que cuidavam da criação de gado. Destaca os principais cultivos agrícolas desde milho, feijão, fava, a cana-de-açúcar e formação de engenhos.
O quinto capítulo trata da ocupação do Meio Norte e sua economia que antigamente era dominada pela pecuária, mas passou a ser dominada pela agricultura (povoamento mais recente).
Sétimo capítulo: aborda o capitalismo e a evolução recente da agricultura nordestina, onde o governo passou a transferir para as atividades agrícolas os sistemas de administração de empresas já dominantes nos setores industriais e comerciais, sobretudo nos setores dominados pela exploração latifundiária causando um impacto ecológico e social.


“GEOGRAFIA ECONÔMICA”
ANDRADE, Manoel Correia de. Geografia econômica. 10ª ed. São Paulo: Atlas, 1989.

Neste livro, os comentários sobre geografia agrária iniciam-se a partir do capítulo 14. Neste capítulo, o autor fala a respeito do uso do solo e estrutura agrária, tratando da importância da agricultura como produtora de alimentos e matéria-prima para vários meios das indústrias, as condições técnico-culturais para o bom desenvolvimento, e o contraste entre produtividade agrícola (quantidade produzida por hectare), e produtividade do trabalho (produção obtida em relação à mão-de-obra empregada) nos países desenvolvidos, subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Relacionando tudo isso aos fatores naturais: clima, solo, relevo; e os condicionantes humanos: irrigação, estufas, etc.
O capítulo 15 aborda o modo de produção, onde os estudiosos costumam admitir que tenha havido na evolução da humanidade uma seqüência de modos de produção formados pela comunidade primitiva, o modo asiático, o escravista, o feudal, o capitalista. Cada um estava ligado a um tipo de relação de produção e de produtividade. O autor explica esses diferentes meios de produção e os sistemas de culturas agrícolas características de cada um, desde a cultura itinerante, até as plantations.
No capítulo 16, os comentários concentram-se em relação à importância da produtividade agrícola, as numerosas espécies de plantas cultivadas pelo homem, e a aceitação de algumas delas por inúmeros motivos, em todo o mundo como os cereais, tubérculos, bebidas, hortaliças, legumes, frutas, entre outros.
Capítulo 17- trata da utilização do espaço para a criação de animais, sistemas de criação e os produtos provenientes da pecuária.
Capítulo 18 – fala da utilização do espaço para a produção de matérias-primas vegetais: plantas têxteis, oleaginosas, da borracha, e do fumo.


“Tempo de transformação no Nordeste”
AGUIAR, Neuma. Tempo de transformação no Nordeste. Petrópolis: Vozes, 1980.

Capítulos 1 e 2 - a autora fala da introdução de indústrias destinadas à produção dos mesmos produtos manufaturados que eram produzidos localmente com técnicas primitivas, analisando a relação entre o modo de produção mercantil e o capitalismo industrial induzido, em especial, na região do Cariri, no estado do Ceará.
Nos capítulos 4, 5, e 6 discute sobre modos de organização social distintos, mas coexistentes na transformação de três tipos de matéria-prima: milho, barro e mandioca, que são o objeto de estudo central do livro.
Nos capítulos 7 e 8, faz uma análise das formas de repartição social dos agentes que participam das atividades produtivas na empresa doméstica e na indústria reforçando as diferenças nas alterações estruturais que se introduzem a partir da industrialização.


“CANAVIAIS E ENGENHOS NA VIDA POLÍTICA DO BRASIL”
AZEVEDO, Fernando de. Canaviais e engenho na vida política do Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro, 1964.

O 1º capítulo fala da produção açucareira, sua influência na organização política e nas transformações das paisagens do Nordeste. Detalha os canaviais e engenhos e seu papel na vida política do país.
No 2º capítulo, o autor trata da vida econômica desde o início da repartição e regime da propriedade, passando pelo trabalho artesanal, usinas movidas por água e animais, os escravos negros e as lutas contra os índios, passando para a economia colonial e pré-capitalista de fábricas e grandes indústrias.
O 3º capítulo refere-se à organização da “casa grande”, a fazenda, a vida pública, e a relação do senhor com escravos, esposa e filhos, o padre e a religião, as grandes famílias de proprietários rurais e as tendências oligárquicas da democracia.
Os últimos capítulos falam das relações das classes sociais da época, burguesia urbana e aristocracia rural, a luta entre cidade e campo e os conflitos entre autoridade e liberdade, concluindo com a evolução dos engenhos para as usinas.


“PRÓ-ÁLCOOL: RUMO AO DESASTRE”
BUENO, Ricardo. Pró-álcool: rumo ao desastre. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 1981.

O principal objetivo do autor é provar que o pró-álcool da maneira que foi implantado, não era a salvação nacional, mas contribuiria muito para piorar a vida da população dos campos e das cidades. Sugere que esse programa deveria ser voltado para as famílias pobres, investindo em pequenos produtores de cana-de-açúcar, expulsando os carros das cidades e investir em transportes coletivos e de cargas (caminhões) movidos a álcool.  Fala também das etapas da produção do álcool, as tentativas de produção das mini-usinas, da utilização da mandioca para a produção do combustível, e a poluição que esse processo provocou no meio ambiente, principalmente nos rios.


“VIOLÊNCIA NO CAMPO: O LATIFÚNDIO E A REFORMA AGRÁRIA”
CHIAVENATO, Júlio José. Violência no campo: o latifúndio e a reforma agrária – S ÃO Paulo: Moderna, 2000.

Este livro trata da posse e do uso da terra no Brasil, e divide-se em sete capítulos:
No primeiro capítulo, o autor fala de diversas modalidades de violência sofridas pela sociedade, tanto do campo, quanto da cidade. Fala da exploração do trabalho infantil no campo, sobretudo no corte de cana, os conflitos na luta pela terra, o trabalho escravo do campo (trabalho em que o camponês é impedido de deixar o campo, e obrigado a exercer forçosamente as suas tarefas), violência cultural (alienação de culturas). O autor atribui todos esses tipos de violência ao problema da concentração da terra.
No segundo capítulo, o autor trata da gravidade da violência: espancamentos, assassinatos, que são os resultados de uma sociedade injusta que prioriza a concentração da riqueza, e o início de todos esses problemas sejam eles rurais ou urbanos estão na concentração da terra.
O terceiro capítulo tem como título: “a justiça é cega”. Defende que só há justiça para os ricos, onde vítimas são transformadas em culpados, e criminosos são inocentados. O autor dá exemplos de alguns desses casos.
O quarto capítulo fala da violência estrutural da sociedade brasileira, onde uma das causas fundamentais da violência urbana é o processo genocida que acontece no campo. O autor defende que toda violência brasileira resulta da violência do campo, que teve origem desde o sistema colonial.
No quinto capítulo o autor explica o significado do latifúndio, e diz que as leis tentam eliminar a palavra latifúndio do nosso vocabulário, dividindo basicamente a terra em pequena, média e grande. Fala também do contraste entre a grande produção de alimentos e o problema da fome.
No sexto capítulo, faz uma relação do aumento do latifúndio e o processo de destruição das florestas, sobretudo na Amazônia, onde os latifúndios agridem a floresta e expulsa a população local.
O sétimo capítulo mostra o aumento do Produto Interno Bruto de um lado, e do outro, o aumento da miséria rural, mostra a falta de democracia brasileira, pois esse tipo de situação ocorre em sociedades não-democráticas, faz uma relação das áreas agricultáveis x as áreas de plantios e defende uma urgência na necessidade de uma reforma agrária . Faz uma representação, através de tabelas, da quantidade e extensão em km dos latifúndios de cada região do Brasil.


“PROJETO REMÍGIO SOS SECA”
FONSECA, Marcelo Rafael Correia Borges da; SILVA, Regina Celly Nogueira da [et al] Projeto Remígio: S.O.S Seca: adote um município – João Pessoa: Unipê, 2004.

O livro inicialmente faz uma apresentação do projeto SOS Seca, falando dos seus principais objetivos, e os motivos que levaram os autores a escolherem o município de Remígio como objeto de estudo.
De acordo com os autores, o projeto SOS Seca pretende subsidiar os procedimentos para a ordenação dos problemas da seca, através de ações de promoção sócio-econômica e de mobilização da população afetada, bem como da introdução de metodologias específicas e de tecnologias adequadas, mais eficazes e menos agressoras aos ecossistemas, pois a desertificação é o empobrecimento dos ecossistemas áridos, semi-áridos, e sub-úmidos sob efeitos combinados com as atividades humanas.
Dessa maneira, o município de Remígio foi escolhido devido à identificação de focos iniciais de desertificação da Mesorregião do Agreste paraibano, área que até pouco tempo não sofria os problemas da seca.
Os autores fazem uma síntese geográfica e geo-histórica de Remígio, enfocando sua história político-administrativa desde o seu desmembramento do município de origem (Areia), e os primeiros povos a habitá-lo (índios Potiguares).
O livro traz também uma caracterização da área da pesquisa nos aspectos climatológicos, geológicos, geomorfológicos, hidrológicos, geo-pedológico, e fitogeográfico.
Analisa o meio sócio-econômico de Remígio, com população, estrutura urbana, relacionando a cidade com a seca, a educação do município, saúde, etc.
Mostra os principais componentes do sistema natural (clima, solo, água, vegetação, relevo e fauna), e suas inter-relações, apresentando diversos mapas com essas características físicas.
O livro termina com as conclusões feitas sobre a degradação do meio ambiente natural, questões de saúde, educação, a natureza da produção e sua natureza sociológica, descrevendo os agravantes que a intervenção humana provoca no processo de desertificação do município, e faz recomendações para uma possível reversão dos problemas identificados.


“A POSSE DA TERRA”
GANCHO, Cândida Vilares; LOPES, Helena de Quiroz Ferreira; TOLEDO, Vera Vilhena. A posse da terra – São Paulo: Ática,1991.

Este livro divide-se em cinco partes:
1ª parte: trata inicialmente do significado que a terra tem para diferentes tipos de pessoas ou classes sociais. Faz uma distinção entre possuir terra (fazer uso), e ter terra (ser proprietário), tratando de casos como de posseiros, usucapeão. Fala da questão da concentração da terra relacionados a igreja, Estado e particular, e da luta pela terra, fazendo uma relação entre donos, proprietários legítimos, posseiros, invasores e grileiros.
2ª parte: faz uma abordagem histórica da origem dos latifúndios brasileiros desde os sistemas das sesmarias e das capitanias hereditárias, e a expansão do território brasileiro a partir desses processos.
3ª parte: trata da venda da terra após o declínio do sistema sesmarial, a formação dos minifúndios; a relação do cultivo da cana-de-açúcar com o latifúndio no Nordeste, e posteriormente a repetição da situação com a implantação da cultura do café no sul do país. Fala também do sistema de colonato, e trabalhadores livres sem-terra das cidades.
4ª parte: trata dos problemas relacionados à urbanização brasileira, onde as cidades passaram a atrair um grande contingente populacional. Enfoca a valorização do solo das cidades, mostrando que os problemas ecológicos tanto dos grandes centros urbanos, quanto da Amazônia, estão diretamente relacionados ao uso e ocupação da terra.
5ª parte: são apresentados alguns textos complementares como ponto de partida para um entendimento mais detalhado das questões referentes à posse da terra no Brasil.
“ASSENTAMENTOS: A RESPOSTA ECONÔMICA DA REFORMA AGRÁRIA”
GORGEN, Frei Sérgio Antônio; STÉDILLE, João Pedro. Assentamentos: a resposta econômica da Reforma Agrária. Rio de Janeiro: Vozes, 1991.

Este livro traz uma visão do que acontece hoje em assentamentos de reforma agrária, especialmente do ponto de vista econômico e social, utilizando como exemplos resultados de pesquisas realizadas em assentamentos do Rio Grande do Sul. O livro divide-se em sete partes:
1ª parte: analisa os impactos dos assentamentos na economia de quatro municípios na região de Cruz Alta/RS, registrando os aspectos históricos do Rio Grande do Sul e da região de Cruz Alta, relatando os conflitos pela posse da terra em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul e no Brasil. Destaca o perfil socioeconômico de Cruz Alta
2ª parte: faz um estudo nos assentamentos no Estado do Espírito Santo, iniciando com discussões sobre a causa geradora dos sem-terra, o verdadeiro sentido da reforma agrária. Trata também do processo de violência no campo e,finalmente, os resultados que o processo de reforma agrária vem provocando no Espírito Santo.
3ª parte: tem como título “Pirituba: exemplo vitorioso e sem mistérios”. Pirituba são 150 famílias de trabalhadores rurais, ex-bóias frias, parceiros e pequenos arrendatários que ocuparam uma área abandonada pertencente ao estado de São Paulo, e apesar de poucos recursos estão conseguindo produzir em forma de trabalhos cooperativado e familiar. O autor conta a história dessa fazenda desde antes, durante e após a ocupação.
4ª parte: o autor fala de um modelo para uma reforma agrária social no Brasil, citando condições e instrumentos para a execução de uma reforma agrária, e propõe considerações para os tipos de assentamentos que podem ser implantados.
5ª parte: trata da questão da educação das crianças nos acampamentos e assentamentos, detalhando para isso, uma história específica dentro dos Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem –Terra no Rio Grande do Sul, mostrando a relação que existe entre a escola e a reforma agrária.
6ª parte: aborda o processo de associativismo de produção na agricultura no Paraná, conceituando associativismo, descrevendo experiências particulares do Paraná, como também exemplos de diversos países do mundo (soviéticos, israelitas, latino-americanos).
7ª parte: apresenta experiências do Movimento Sem Terra (MST) na organização e estímulo à cooperação agrícola nos assentamentos, os fundamentos econômicos e sociais que levam o MST a adotar a cooperação agrícola como principal linha política de organização da produção nos assentamentos. Cita também exemplos de experiências fracassadas, e apresenta propostas para o futuro, em termos de organização cooperativista.


“A CRISE AGRÁRIA”
GUIMARÃES, Alberto Passos. A crise agrária – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

Este livro divide-se em oito capítulos:
1º capítulo: trata das transformações que ocorrem na organização da agricultura mundial, em sua economia interna, e em suas relações com os demais setores de atividade econômica. Mostra as etapas do percurso que a agricultura faz para a industrialização, marchando rumo ao desenvolvimento, mas essa marcha não lhe proporciona apenas resultados positivos. O autor faz um estudo das etapas fundamentais do crescimento agrícola em todo o mundo, e suas principais conseqüências .
2º capítulo: fala da revolução agrícola no Brasil, considerando a abolição da escravatura como o acontecimento marcante para o início desse processo. Fala também das experiências dos engenhos centrais e do cultivo de produtos como: cana-de-açúcar, café e algodão.
3º capítulo: aborda o processo de industrialização da agricultura e sua expansão pelo mundo inteiro, onde os espaços vazios estão sendo cada vez mais ocupados. As terras férteis e baratas que em épocas anteriores foram a base do crescimento agrícola, tornaram-se por todo o mundo muito mais raras e mais caras.
4º capítulo: fala do crescimento da industrialização da agricultura como conseqüência da expansão industrial verificada em todo o mundo e que contribui tanto no processo interno da evolução agrícola, quanto na relação da agricultura com os demais setores da economia.
5º capítulo: trata das limitações do crescimento agrícola, destacando: a propriedade privada do solo (concentração da terra), concentração da renda, custos da industrialização, os problemas da utilização do capital. Faz uma abordagem dos problemas dos pequenos produtores agrícolas.
6º capítulo: fala da escassez de alimentos e o agro-poder, especialmente na China, Índia, e União Soviética. O problema do controle dos mercados: fome e planejamento familiar; crise alimentar e distribuição de renda; revolução verde.
7º capítulo: o autor faz uma comparação das etapas do crescimento agrícola, com as do crescimento industrial: trabalho manual é substituído por equipamentos cada vez mais aperfeiçoados até atingir níveis mais elevados de produtividade. Assim como nas indústrias, a agricultura vai abandonando os métodos por um tipo de organização semelhante a manufatura, até atingir um tipo superior de unidade produtiva.
8º capítulo: fala do futuro da agricultura brasileira, descrevendo os recursos naturais propícios ao desenvolvimento agrícola existente no Brasil, e os principais entraves para esse desenvolvimento.


“O MINIFÚNDIO GAÚCHO: AJUDA TÉCNICA COMO ALTERNATIVA?”
KUCHEMANN, Berlindes Astrid. O minifúndio gaúcho: ajuda técnica como alternativa? –Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Caxias do Sul, Universidade de Caxias do Sul, 1980.

Este livro divide-se em três partes.
1ª parte: fala da ajuda técnica prestada pela república federal da Alemanha de forma geral, e em especial na agricultura, aos países dependentes. Aborda também a questão do significado dos programas de formação e capacitação profissional dentro da ajuda ao desenvolvimento prestada pela república federal da Alemanha.
2ª parte: trata da estrutura agrária brasileira: as relações de produção; distribuição fundiária sistema de propriedade e uso da terra; crédito rural; condições de vida do homem do campo. Enfatiza especificamente questões do Rio Grande do Sul, como: “processo de caboclização” do pequeno agricultor gaúcho; as formas de organização pastoral do Rio Grande do Sul e o elevado grau de concentração da terra e dos recursos produtivos nas mãos de uma minoria.
3ª parte: analisa as pré-condições necessárias assentadas pela ajuda técnica alemã para o êxito de uma formação e capacitação de estagiários provenientes de países subdesenvolvidos: o JUNGBAUERNPROGRAMM. Primeiramente faz uma configuração desse programa: origem, objetivos, significados e organismos responsáveis. Finalmente, investiga a situação concreta dos jovens participantes do programa, após o seu regresso, e especificamente, as expectativas dos jovens estagiários brasileiros, de volta ao seu país.


“COOPERATIVAS AGRÍCOLAS E CAPITALISMO NO BRASIL”
LOUREIRO, Maria Rita. Cooperativas agrícolas e capitalismo no Brasil – São Paulo: Cortez, 1981.

Este livro divide-se em cinco capítulos.
O primeiro capítulo trata do significado e abrangência do cooperativismo agrícola brasileiro, analisando as dimensões estruturais do desenvolvimento dessas cooperativas. Fala das disparidades inter-regionais, o dinamismo, o desenvolvimento desigual na agricultura brasileira, a diferenciação social dos produtores.
O segundo capítulo traz uma abordagem ao funcionamento de um grupo social formado por “parceleiros” , atualmente vinculados a uma cooperativa integral de reforma agrária localizada na Zona da Mata, no sul de Pernambuco. Fala da desapropriação de todo um acervo industrial, imobiliário e agrícola do complexo agro-industrial da Caxangá. O principal interesse do autor sobre esse estudo é compreender um tipo de relação social de dominação que inicia-se com a paralisação das atividades da usina.
O terceiro capítulo constitui uma abordagem ao funcionamento da cooperativa regional Tritícola Serrana Ltda, com sede na cidade de Ijuí, Rio Grande do Sul. Trata da tentativa de criação de um conglomerado de capital nacional.
O quarto capítulo analisa os mecanismos pelos quais a cooperativa se torna um tipo de empreendimento econômico capaz de realizar a expropriação do camponês sem, entretanto, destruí-lo, ou seja, mostrar como a cooperativa pode constituir-se em um eficiente instrumento de subordinação de agricultores camponeses ao capital.


“MST: FORMAÇÃO E TERRITORIALIZAÇÃO”
MANSANO, Fernandes Bernardo. MST: formação e territorialização. São Paulo: Hucitec, 1999.

Este livro divide-se em cinco capítulos:
No primeiro capítulo, o autor analisa um período da história da agricultura brasileira entre 1965 e 1985, dentro do processo de desenvolvimento do capitalismo, abordando a atuação militar no processo agropecuário, enfatizando nesse contexto, a questão da propriedade e dos conflitos fundiários.
No segundo capítulo, o autor fala da gênese do MST, nas novas formações de lutas pela terra, compreendido entre 1978 e 1985, período da luta pela democracia, em que a classe trabalhadora consegue conquistar alguns novos espaços, tanto no campo, quanto nas cidades.
 No terceiro e quarto capítulos, o autor trata da formação do MST no estado de São Paulo a partir do ano de 1979. Faz uma síntese da história da atuação do MST no estado após essa data, mostrando exemplos de suas ocupações e suas principais lutas nas conquistas de várias terras. 
 O quinto capítulo fala da espacialização e territorialização da luta pela terra, enfocando a multidimensionalidade do espaço de socialização política: o espaço comunicativo; o espaço interativo; e o espaço da luta e resistência, e por fim, a territorialização da luta pela terra e pela reforma agrária.


“MODO CAPITALISTA DE PRODUÇÃO E AGRICULTURA”
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. Modo capitalista de produção e agricultura. São Paulo: Ática, 1986.

Este livro divide-se em sete capítulos:
No primeiro capítulo, o autor procura trazer as abordagens teóricas da agricultura, tratando do afastamento dos camponeses e a modernização dos latifúndios através dos diferentes pontos de vista de diversos autores. Fala das relações feudais através de uma corrente teórica que procura entender o desenvolvimento da agricultura sob o capitalismo, vendo nos camponeses e nos latifúndios as evidências da permanência de relações feudais de produção, e por último, explica o processo de criação e recriação do campesinato e do latifúndio.
No segundo capítulo, faz uma análise da forma de produção feudal no seu contexto histórico, explicando o que são feudos; servidão; e comunidade aldeã feudal.
No terceiro capítulo, apresenta uma visão crítica da agricultura no período de transição do feudalismo ao capitalismo, destacando as diferenças entre propriedade parcelária x propriedade individual, assim como indústria doméstica x indústria capitalista urbana.
No quarto capítulo, é destacada a agricultura no capitalismo concorrencial e no monopolista; são destacadas suas principais características na Europa, África, Ásia e América, particularmente no Brasil.
O quinto capítulo estuda as relações capitalistas e camponesas de produção, e a ideologia capitalista de produção, onde é o trabalho que cria o capital, permitindo assim, a sobrevivência do trabalhador.
O sexto capítulo trata dos variados tipos de renda da terra: a renda diferencial; a absoluta; a de monopólio; e a pré-capitalista.
O sétimo capítulo termina com uma abordagem sobre problemas relacionados à questão da terra e a reforma agrária.



“ALÉM DAS CERCAS: UM OLHAR EDUCATIVO SOBRE A REFORMA AGRÁRIA”
PEREIRA, Antônio Alberto. Além das Cercas: um olhar educativo sobre a reforma Agrária – João Pessoa: Idéia, 2005.

Esse livro é o resultado de uma pesquisa feita no assentamento Nova Vida, localizado nas terras do Abiá, antiga fazenda dos Lundgrens, no município de Pitimbu-PB. O livro divide-se em quatro capítulos:
1º capítulo: faz uma explicação a respeito de práticas educativas segundo Paulo Freire, depois fala da educação bancária como expressão da pedagogia do colonizador e alguns fatos da invasão cultural, a visão do ser humano como objeto e, por último, destaca as características da educação libertadora segundo a pedagogia do oprimido.
2º capítulo: trata da questão agrária e as lutas camponesas na Paraíba, fazendo uma síntese da questão agrária brasileira, para depois falar da questão agrária paraibana desde a invasão e conquista do território pelos colonizadores, destacando a ocupação do espaço agrário pelo cultivo açucareiro, o algodão e a indústria da seca, passando pela abolição do trabalho escravo e o surgimento de outro tipo de escravidão: cambão, foro e barracão. Faz um resgate da questão da luta das ligas camponesas paraibanas, da Comissão Pastoral da terra (CPT/PB), e dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (STR).
3º capítulo: fala do processo de luta pelas terras do Abiá, promovidas pelo MST, fala da atuação do MST na Paraíba, e apresenta a formação e estruturação do assentamento Nova Vida.
4º capítulo: analisa as práticas educativas identificadas entre os trabalhadores rurais do assentamento Nova Vida, e suas relações com a terra, entre eles, com a igreja evangélica, religião mais atuante no assentamento, com o INCRA, órgão do governo responsável por implantar a reforma agrária, e com o MST, movimento social responsável pela organização dos assentamentos desde a fase de acampamento (1993 - 1995), até a fase de assentamento (1995 – 2002).


“QUANDÚ: UMA EXPERIÊNCIA DE ASSENTAMENTO”
MOREIRA, Orlandil de Lima; SILVA, Severino Bezerra da. Quandu: uma experiência de assentamento - João Pessoa: Imprell Gráfica e Editora Ltda, 1997.

Esse livro é uma pesquisa de campo realizada no assentamento Quandú, que localiza-se na microrregião do Curimataú, nos municípios de Barra de Santa Rosa e Cuité. Compreende uma área territorial de 1.408 ha divididos entre 47 famílias.
O livro divide-se em quatro capítulos:
O primeiro fala das práticas sociais antes do assentamento, que até meados dos anos 80 eram mediadas pela escravidão e o medo, fazendo uma discussão a respeito da relação entre os fazendeiros e os trabalhadores, comparando o coronelismo do Sertão e o escravismo típico da zona canavieira.
O segundo capítulo conta a história da luta pela terra do assentamento desde o início da luta pela terra, enfocando as principais perseguições que os trabalhadores sofreram através da ação de capangas do dono da terra e de policiais, e todas as etapas para o reconhecimento legal dos assentamentos.
O terceiro capítulo trata das práticas econômicas e sociais do assentamento, caracterizando os recursos naturais da área, sistema de transporte, assistência técnica, produção e comercialização de grãos. Destacam também as condições de moradia, educação, e a melhoria de vida que esse assentamento proporcionou aos trabalhadores.
O quarto capítulo faz uma reflexão sobre o cotidiano no assentamento, o conjunto de mudanças no hábito de vida dos trabalhadores, seus principais problemas atuais, a maneira como estão organizados, etc.
Nas considerações finais, os autores concluem a pesquisa analisando de uma forma geral as transformações e evolução do assentamento, o nível tecnológico da agricultura, e por fim, fazem sugestões de como os órgãos responsáveis podem contribuir para fortalecer as instâncias organizativas do assentamento, sobretudo o INCRA.


“O QUE É QUESTÃO AGRÁRIA”
SILVA, José Graziano. O que é questão Agrária. 13ª ed. São Paulo: brasiliense, 1986.

O autor aborda a questão da Reforma Agrária, e seu significado para os trabalhadores rurais. Ele defende uma redistribuição de terra e de renda, e fala das causas históricas da concentração da terra desde a época colonial. Enfoca a questão da industrialização da agricultura, e faz uma relação dos avanços na produção agrícola, e o agravamento da questão agrária. Apresenta ainda as diferentes categorias de trabalhadores brasileiros, suas reivindicações e sua organização social.


“TERRA DE MORADA: DIAGNÓSTICO SÓCIO CULTURAL DO ASSENTAMENTO FAZENDA SANTA CATARINA”
SILVA, Lígia Maria Tavares da. Terra de Morada: diagnóstico Cultural do assentamento Fazenda Santa Catarina – João Pessoa: Para’iwa, 1997.

O livro trata do assentamento Fazenda Santa Catarina, que localiza-se no município de Monteiro-PB, na microrregião dos Cariris Velhos e na região fisiográfica da Borborema Central.
De acordo com a autora, a Fazenda Santa Catarina é um assentamento criado sem conflito, em uma área de antigos moradores que viviam no local a mais de um século. De repente, com a desapropriação do local, esses moradores se viram na condição de assentados.
O livro está dividido em três partes:
A primeira analisa o ambiente natural, caracterizando geograficamente o local (localização, relevo, hidrografia, clima, cobertura vegetal), faz uma relação sociedade-natureza, retrata a luta pela sobrevivência e a utilização dos recursos naturais (solo, fauna, madeira, uso da água e os problemas ambientais provocados).
A segunda parte trata do ambiente sócio-econômico, a forma com que desenvolvem o trabalho dentro e fora do assentamento, os tipos de moradias, equipamentos comunitários como escolas, postos de saúde, correio, açudes, capela. Fala também sobre educação, saúde, produção e comercialização de produtos e a situação política do assentamento.
Na terceira parte, descreve o ambiente cultural da Fazenda Santa Catarina. Segundo a autora, esse ambiente foi criado a partir de relações que os trabalhadores foram estabelecendo com o meio natural, e na sua luta pela sobrevivência, foram criando formas na paisagem, comportamentos, acontecimentos sociais, e principalmente as atividades artísticas e artesanais que expressam o significado de seu contexto cultural. Fala também das formas de divertimento e o lazer cotidiano da Fazenda, a religiosidade, futebol, e faz uma relação da cultura com a qualidade de vida.
O livro é repleto de fotografias de alta qualidade, e poesias que mostram a realidade da população desse assentamento, que segundo a autora, embora seja pobre financeiramente, é muito rico em cultura.


“O QUE É REFORMA AGRÁRIA”
VEIGA, José Eli. O que é Reforma Agrária.  14ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

Este livro divide-se em quatro partes:
1ª parte: inicia dando conceitos de reforma agrária, tratando da questão dos pré-requisitos que levam um país a realizar ou revogar programas de reforma agrária, e de que condições históricas geram a necessidade dessa realidade. Fala também dos critérios de desapropriação, onde em geral institui-se que todas as propriedades que ultrapassarem uma determinada área máxima em hectares, serão passíveis de desapropriação. Para melhor explicar, o autor traz conceitos de módulo rural, e das quatro grandes categorias que classificam os imóveis: minifúndio, empresa rural, latifúndio por exploração, e latifúndio por dimensão. Explica também as modalidades de desapropriação e a atribuição das terras.
2ª parte: o autor fala de processos de reforma agrária, dando exemplos de países como México, que segundo o autor, teve meio século de reformas, e a ex-União Soviética que também foi palco de longas lutas camponesas, e implanta uma nova agricultura coletiva.
3ª parte: trata das perspectivas da reforma agrária brasileira, onde o autor cita as principais proposições aprovadas pelos congressistas para que ela venha a ser efetivada, enfocando os principais problemas que envolvem a questão agrária brasileira.
4ª parte: o autor faz indicações de algumas obras globais disponíveis em português que podem aprofundar os conhecimentos sobre a questão agrária.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Manoel Correia de. Nordeste: alternativas da agricultura – Campinas/ SP: Papirus, 1988.
ANDRADE, Manoel Correia de. A terra e o homem no Nordeste. 5ª ed. São Paulo: Atlas, 1986.
ANDRADE, Manoel Correia de. Geografia econômica. 10ª ed. São Paulo: Atlas, 1989.
AGUIAR, Neuma. Tempo de transformação no Nordeste. Petrópolis: Vozes, 1980.
AZEVEDO, Fernando de. Canaviais e engenho na vida política do Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro, 1964.
BUENO, Ricardo. Pró-álcool: rumo ao desastre. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 1981.
CHIAVENATO, Júlio José. Violência no campo: o latifúndio e a reforma agrária – S ÃO Paulo: Moderna, 2000.
FONSECA, Marcelo Rafael Correia Borges da; SILVA, Regina Celly Nogueira da [et al] Projeto Remígio: S.O.S Seca: adote um município – João Pessoa: Unipê, 2004.
GANCHO, Cândida Vilares; LOPES, Helena de Quiroz Ferreira; TOLEDO, Vera Vilhena. A posse da terra – São Paulo: Ática,1991.
GORGEN, Frei Sérgio Antônio; STÉDILLE, João Pedro. Assentamentos: a resposta econômica da Reforma Agrária. Rio de Janeiro: Vozes, 1991.
GUIMARÃES, Alberto Passos. A crise agrária – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
KUCHEMANN, Berlindes Astrid. O minifúndio gaúcho: ajuda técnica como alternativa? –Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Caxias do Sul, Universidade de Caxias do Sul, 1980.
LOUREIRO, Maria Rita. Cooperativas agrícolas e capitalismo no Brasil – São Paulo: Cortez, 1981.
MANSANO, Fernandes Bernardo. MST: formação e territorialização. São Paulo: Hucitec, 1999.
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. Modo capitalista de produção e agricultura. São Paulo: Ática, 1986.
PEREIRA, Antônio Alberto. Além das Cercas: um olhar educativo sobre a reforma Agrária – João Pessoa: Idéia, 2005.
MOREIRA, Orlandil de Lima; SILVA, Severino Bezerra da. Quandu: uma experiência de assentamento - João Pessoa: Imprell Gráfica e Editora Ltda, 1997.
SILVA, José Graziano. O que é questão Agrária. 13ª ed. São Paulo: brasiliense, 1986.
SILVA, Lígia Maria Tavares da. Terra de Morada: diagnóstico Cultural do assentamento Fazenda Santa Catarina – João Pessoa: Para’iwa, 1997.

VEIGA, José Eli. O que é Reforma Agrária.  14ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A Soberania Popular pede Diretas Já

Imagem extraída do site de Ricardo Antunes, 02/03/2017.
Por: Belarmino Mariano Neto

Depois de ontem com a flagrante queda do governo ilegítimo de TEMER (PMDB, PSDB, DEM...), três questões me deixaram em estado de reflexão nestes últimos dias. a primeira é sobre a ideia de verdade? A segunda é sobre o preço do silêncio? A terceira é sobre a impunidade?
A Grande Mídia Nacional, capitaneada pelo Sistema Globo, com informações secretas e privilegiadas, passou a manipular dados e pessoas, alterando completamento o sentido da verdade.  A verdade milhares de vezes manipulada, alterada, interpretada e esgarçada, vai se tornando uma meia verdade. 
Sobre o silêncio, já havia escutado de muitos sábios o quanto o silêncio é importante, pois podemos aprender com ele. A voz do silêncio é suave e para alguns  e verdadeiramente divina. Mas, quando estamos falando sobre o silêncio do Ex-Deputado Federal e Ex-Presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB), cassado e preso por corrupção e uma dezena de outros crimes. Aquele que tinha maioria constante dentro do Congresso e que foi abandonado pelos aliados de uma dezena de partidos, ficamos a pensar sobre a valiosa verdade do silêncio de Cunha? Quem estava tão interessado pelo seu silêncio sepulcral do Cunha? Sobre a impunidade tratarei ao final desse artigo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Assad: A derrota dos terroristas é a derrota dos países que os apoiam

Do Portal Vermelho ( http://www.vermelho.org.br/noticia/291234-9)

Em entrevista à jornalista Maria Finóshchna, da emissora Russia Today, o presidente sírio Bachar al-Assad explica os acontecimentos em Alepo, onde o Exército Árabe Sírio, com a ajuda da Rússia, acaba de infligir uma contundente derrota aos terroristas apoiados por potências imperialistas ocidentais e países da região. 


Exército Árabe Sírio em um dos bairros de AlepoExército Árabe Sírio em um dos bairros de Alepo
Leia a seguir a íntegra da entrevista, traduzida pelo Resistência:

Rússia Today: Senhor presidente, obrigado por nos receber.

Presidente Bachar al-Assad: Sejam bem-vindos a Damasco.

Comecemos com Alepo, claro. Alepo passa hoje por combates que talvez sejam os mais ferozes desde o início da guerra há seis anos aqui na Síria. Mas políticos e jornalistas ocidentais insistem em posições de forte oposição, com olhar muito negativo sobre os avanços do exército sírio. Por que acontece assim, na sua avaliação? Será que veem a derrota dos inimigos da Síria como derrota deles mesmos?
Faz sentido, depois de terem fracassado em Damasco, porque o discurso dos três primeiros anos da guerra era “libertar Damasco das mãos do Estado”. Quando fracassaram, foram para Homs; fracassaram em Homs e concentraram-se contra Alepo durante os três últimos anos. E para eles, seria a grande cartada no campo de batalha sírio.

Claro, sim, sempre houve terroristas nas várias regiões da Síria, mas não como em Alepo que é a segunda maior cidade do país, com dimensão política muito especial, militar, econômica e até moral, depois que os terroristas foram derrotados.

Assim, para políticos e jornalistas ‘ocidentais’, a derrota dos terroristas é a derrota das forças que o próprio ocidente mantém ‘por procuração’ na Síria, para dizer claramente. São forças do ‘Ocidente’, mantidas aqui por procuração e, para essas forças, a derrota dos terroristas é a derrota dos países que supervisionam e abastecem os terroristas, sejam países regionais ou países ‘ocidentais’ como EUA, em primeiro lugar, a França e o Reino Unido.

Para o senhor, então, eles veem o que está acontecendo como derrota direta deles?

Exatamente, é exatamente o que quero dizer. A derrota dos terroristas é a derrota desses países, porque os terroristas são o verdadeiro exército daqueles países, em luta aqui na Síria. Esses países não intervieram diretamente na Síria: mas, sim, a intervenção aconteceu mediante essas forças ‘por procuração’. As coisas têm de ser vistas desse modo, se se quer fazer análise realista. E, claro, as declarações dos terroristas nada mudam nesses fatos.

Palmira é agora mais uma zona problemática, tomada pelo Isis (sigla em inglês do chamado Estado Islâmico). Mas não se ouve tanta indignação ‘ocidental’ no caso de Palmira. O motivo é esse que o senhor já expôs?
Exatamente. Se Palmira tivesse sido invadida pelo Exército Árabe Sírio, lá estaria em todos os jornais o discurso sobre danos ao patrimônio histórico. Imediatamente depois que expulsamos os terroristas que ocupavam Alepo e a cidade foi libertada, autoridades ‘ocidentais’ e jornalistas dos veículos das grandes empresas de mídia põem-se a manifestar preocupação com os civis… Mas não se incomodam desde que os terroristas estejam no comando, matando civis, massacrando populações inteiras ou atacando Palmira e destruindo patrimônio cultural da humanidade, e não só na Síria.

Sua avaliação é correta. Se você considera o momento escolhido para atacarem Palmira, vê-se claramente que está ligado ao que acontece em Alepo. É a resposta dos terroristas ao que acontece em Alepo, ao avanço do Exército Árabe Sírio. Quiseram minar a vitória em Alepo e, ao mesmo tempo, distrair a atenção do Exército Árabe Sírio, afastando-o de Alepo e atraindo-o para Palmira para, assim, interromper o avanço em Alepo. Não funcionou como os terroristas esperavam.

Também há informações segundo as quais o sítio de Palmira não estaria conectado só à batalha de Alepo, mas também ao que se passava no Iraque. A coalizão dirigida pelos EUA, com cerca de 70 países, teria permitido que os terroristas do Isis que combatiam em Mossul partissem, o que teria reforçado o Isis aqui na Síria. O senhor acredita que tenha acontecido desse modo?
É possível, mas exclusivamente para limpar as pegadas das autoridades norte-americanas e livrá-las da responsabilidade no ataque contra Palmira. Fingem que o exército iraquiano estaria atacando Mossul e que o Isis trocou Mossul pela Síria, e estaria explicado. Mas a explicação absolutamente não é essa.

Por quê? Porque os terroristas atacaram Palmira com poder de fogo e quantidade de soldados sem precedentes, em proporções que o Isis nunca teve antes dessa guerra. Atacaram num front muito extenso, de dezenas de quilômetros, o que pode corresponder a vários exércitos. O Isis jamais conseguiria isso se não contasse com apoio de vários Estados, não de apenas um, mas de vários Estados. Vieram com metralhadoras, canhões, artilharia diferente.

Não conseguiriam avançar nesse deserto, sem a ajuda e supervisão da aliança norte-americana que deveria atacar os terroristas, não ajudá-los, em Raqqa, Mossul e Deir-Ezzor. Mas não aconteceu assim. Fecharam os olhos para tudo o que o Isis fizesse – ou mesmo, e é minha avaliação – a aliança norte-americana empurrou os terroristas na direção de Palmira.

Mas a questão não é Mossul, e não cairemos nessa armadilha. A questão é Raqqa e Deir-Ezzor, próximas, a apenas alguns quilômetros. Não chegariam até aqui sem ajuda de satélites e drones norte-americanos e sem apoio dos norte-americanos.

Qual o estado atual das forças do Isis?

A força dos terroristas equivale à ajuda que obtêm do ocidente e de potências regionais. Na verdade, se os consideramos isoladamente, não são fortes, porque não contam com estruturas naturais de inserção social. Sem isso, os terroristas jamais têm força suficiente.

A força deles é o apoio que recebem (dinheiro, investimentos no petróleo, apoio de forças aéreas da aliança norte-americana…). Toda a força dos terroristas vem daí. Por isso lhe digo que a força dos terroristas equivale à força dos seus apoiadores e guias.

Ouvimos em Alepo que o senhor permitiu que alguns daqueles terroristas deixassem o campo de batalha, se quisessem. Por que o senhor fez isso? É claro que podem reaparecer em Idlib, por exemplo, se rearmar e se preparar para outros ataques, voltar para atacar os que libertam Alepo.
É verdade, e acontece assim já há vários anos. Mas é sempre uma questão de calcular vantagens e inconvenientes. Se os ganhos são maiores que as perdas, vale a pena fazer. Nesse caso, nossa prioridade é preservar a região, impedir que seja destruída; proteger civis que vivem lá há séculos; abrir vias para evacuar os civis por corredores humanitários e guiá-los para áreas controladas pelo governo sírio; e dar uma chance aos próprios terroristas para que mudem de ideia, reaproximem-se dos seus conterrâneos, voltem à vida normal e possam ser anistiados.

Se não aceitam, deixamos que partam com as armas – apesar de todos os inconvenientes, mas o que nos importa é afastá-los das áreas históricas. Sendo o caso, podemos dar-lhes combate longe dos setores construídos, fora da cidade, onde haverá menor número de mortos e menor destruição de monumentos e áreas construídas. Por isso estamos agindo desse modo.

O senhor os chama de terroristas, mas os trata como seres humanos. O senhor fala em dar a eles uma chance “para que voltem à vida normal”.
Raciocinamos exatamente desse modo. São terroristas porque lhes puseram armas nas mãos e lhes pagam salários para matar, destruir, praticar atos de vandalismo. É terrorismo. Em todo o mundo o que eles fazem é classificado como atos de terrorismo.

Mas ao mesmo tempo, são seres humanos. Praticam terrorismo, mas poderia não ser assim. São pessoas que se uniram ao terrorismo por incontáveis razões, por medo, por dinheiro, em alguns casos por razões ideológicas. Todos os que possam ser reabilitados e voltar à vida normal, que voltem a ser cidadãos respeitáveis. É nosso dever dar-lhes uma chance justa. É nosso trabalho de governo.

Não basta dizer “Vamos combater os terroristas”. A luta contra terroristas é como nos jogos de vídeo. Pode-se matar o inimigo, mas o próprio jogo gera e regenera milhares de novos inimigos. O que não se pode fazer é tratá-los como os norte-americanos os tratam: matar uma vez, duas vezes, três vezes, matar sempre e sempre, e quanto mais terroristas surjam para serem mortos, melhor! Não. Não somos assim. Nosso objetivo não é esse, não fizemos essa escolha. Se se pode mudar o próprio jogo, melhor para todos.

E tem funcionado. Temos tido bons resultados e um grande número desses terroristas, sim, mudam de perspectiva, vários retomam à vida de antes, vários unem-se ao exército sírio e passam a combater contra os terroristas que permanecem lá. Do nosso ponto de vista, é um programa bem-sucedido.

Senhor presidente, o senhor acaba de reconhecer que se ganha e se perde. Na sua avaliação, seu governo fez o suficiente para minimizar as perdas civis durante essa guerra?
Fazemos o melhor que podemos. A Síria foi atacada, essa guerra não foi decidida por nós. Fazemos o que podemos fazer. Se é suficiente? Que cada um avalie. De fato, “suficiente” é sempre tudo o que você consiga fazer em esforço máximo. É a minha capacidade pessoal, a capacidade do governo sírio, a capacidade da Síria, que é um país pequeno enfrentando a guerra que lhe fazem dezenas de países, centenas de gigantes da mídia-empresa dominante e outros meios e forças que se ergueram contra nós.

Não tenho dúvidas de que fizemos o melhor possível em situação dificílima. Afinal de contas, nada jamais será suficiente nessas circunstâncias e as ações humanas sempre são a resultante de coisas boas e justas, e de coisas imperfeitas e erradas. As coisas são assim.

Os países ocidentais ‘exigiram’ repetidas vezes que a Rússia e o Irã pressionassem o senhor para que pusesse fim à violência, como eles dizem. Recentemente, seis países ocidentais, em mensagem sem precedentes, requereram novamente à Rússia e ao Irã que pressionassem seu governo, exigindo um cessar-fogo em Alepo.
É verdade.

O senhor aceitará? Querem o cessar-fogo no exato momento em que o Exército Árabe Sírio está avançando.
Exatamente. Na política, é sempre importante ler as entrelinhas, não se deixar prender só nas linhas. O que eles ‘exigem’ não tem importância alguma. A tradução correta daquela declaração é: “Vocês russos, por favor, detenham o avanço do exército sírio contra os terroristas.” Esse é o significado daquela declaração: “Vocês cometeram excessos na vitória contra os terroristas. A derrota deles foi excessiva. Isso não pode ficar assim. Vão lá e digam aos sírios que ponham fim a esse negócio de derrotar terroristas. Os terroristas têm de ser preservados. Têm de ser salvos”. Em resumo, aquele apelo dizia isso. O restante pode esquecer.

Em segundo lugar, a Rússia nunca – nem hoje, nem durante a guerra, nem antes da guerra, nem em momento algum, nem na época da União Soviética – a Rússia nunca, em momento algum tentou intervir nas nossas tomadas de decisão. Até hoje, cada vez que a Rússia teve opiniões ou conselhos a dar, independentemente de se seriam considerados ou não, sempre declarou: “O país é de vocês, vocês sabem qual a melhor decisão a tomar. Expusemos o modo como nós vemos as coisas, mas se vocês veem as coisas de outro modo, vocês, sírios, sempre conhecerão melhor o país de vocês.” Os russos são realistas, além de respeitar nossa soberania e eles sempre defendem a soberania que repousa sobre o Direito Internacional e a Carta das Nações Unidas. Nunca aconteceu de os russos pressionarem os sírios e jamais pressionarão. Simplesmente, os russos não trabalham desse modo.

Em que condições está o Exército Árabe Sírio?

É preciso avaliar em relação a duas coisas: primeiro, no que tenha a ver com a guerra propriamente dita; segundo, em relação às dimensões territoriais da Síria. A Síria não é um país de grande extensão territorial, portanto não pode manter um exército gigante, em termos quantitativos. O apoio dos nossos aliados é muito importante, especialmente da Rússia e do Irã. Depois de seis anos, ou quase seis anos, de guerra – a guerra na Síria já ultrapassou em duração a 1ª Guerra e a 2ª Guerra Mundiais –, é claro e evidente que o exército sírio já não pode ter as dimensões que tinha antes dessa guerra.

Mas o que nunca nos faltou foi a determinação de defender nosso país. É a decisão mais importante. Nosso exército perdeu muitas vidas, nossos muitos mártires e nossos soldados hoje inválidos. São muitos, sofremos perdas materiais enormes. Do ponto de vista dos números, perdemos muito, mas nossa determinação nunca faltou. Hoje, essa determinação é ainda maior que antes da guerra. Mas, sim, não se pode deixar de considerar o apoio que recebemos da Rússia, do Irã, que acrescentaram eficácia e concretude à nossa determinação.

O presidente Obama suspendeu recentemente a proibição de fornecer armas a rebeldes sírios.
Sim.

Como essa decisão pode traduzir-se em efeitos no terreno? Como o senhor avalia a medida? Será que reforçará direta ou indiretamente os terroristas?
Não estamos acreditando que ele só agora tenha posto fim à suspensão do fornecimento de armas. Acreditamos que o fornecimento já pode ter sido reiniciado bem antes, e só está anunciando para dar ao gesto algum tipo, digamos, de legitimidade política. Isso, em primeiro lugar.

Em segundo lugar, um ponto também muito importante: a data do anúncio e o ataque a Palmira coincidem. Há uma relação direta entre esses dois eventos, e a questão portanto é: quem, afinal, recebe essas armas? Em que mãos se encontram? Sabemos a resposta: nas mãos do Isis e da Frente al-Nusra, que são grupos que agem coordenadamente.

O anúncio do fim da proibição de enviar armas a terroristas está, portanto, diretamente associado ao ataque contra Palmira e à manutenção de outros terroristas dentro da cidade de Alepo, porque, depois que foram derrotados em Alepo, os EUA e o Ocidente têm de manter as suas forças nesses locais, para isso mantêm seus terroristas por procuração: porque absolutamente não têm interesse algum em resolver o conflito na Síria.

Assim sendo, o objetivo crucial do anúncio é criar ainda mais caos, porque os EUA criam o caos para administrá-lo a seu modo; e quando estão no comando do caos, procuram usar todos os diferentes fatores daquele caos para explorar partes diferentes do conflito, sejam internas ou externas.

Senhor presidente, como o senhor se sente, presidente de um país pequeno, no centro dessa onda gigantesca de outros países que não têm qualquer interesse em pôr fim a essa guerra?
Exatamente. É algo que conhecemos desde sempre, mesmo antes dessa guerra, mas hoje sentimos mais fortemente, claro, porque os países pequenos sempre estão mais seguros em tempos de paz no mundo, de equilíbrio internacional. Sentimos bem isso a que a senhora se refere, depois do desmonte da URSS, quando só passou a haver a hegemonia dos EUA, e os EUA se dedicavam a fazer as coisas a seu modo, sempre ditando a política deles ao resto do mundo. Nessas circunstâncias, os países pequenos são os que mais padecem.

Sentimos também hoje, mas ao mesmo tempo há hoje mais equilíbrio, porque a Rússia assumiu um papel no processo. Por isso entendemos que quanto mais forte for a Rússia – e não falo só da Síria, falo de todos os países pequenos em todo o mundo –, quanto mais a China crescer e emergir, mais seguros os pequenos nos sentiremos.

A situação em que vivemos hoje é muito dolorosa, em todos os níveis: no plano humanitário, dos sentimentos, das perdas, em todos os níveis. Mas no fim das contas, a questão não é perder ou ganhar algum objeto de baixo valor: trata-se de perder ou ganhar o nosso próprio país. A Síria enfrenta uma ameaça existencial. Não se trata de um governo que seja derrotado por outro, um exército que seja derrotado por outro. Trata-se de um país que, se for derrotado, deixará de existir. As coisas para nós estão postas nesses termos. Por isso temos pouco tempo para sofrer ou chorar nossas dores e perdas; os sírios só temos tempo para lutar, para nos defender e para fazer o que seja preciso fazer que a luta nos imponha.

Falemos do papel dos veículos de informação de massa, nesse conflito.

Muito bem.

Todos os lados em luta nessa guerra foram acusados de ter feito vítimas civis, mas os veículos de mídia em todo o ocidente mantiveram-se em silêncio quase total sobre as atrocidades cometidas pelos rebeldes. Que papel têm os veículos e as empresas da mídia de massa, nesse conflito?
Em primeiro lugar, as mídias-empresas dominantes, e seus confrades dentro dos partidos políticos sofrem todos eles já há décadas, um processo acentuado de corrupção moral. São empresas e profissionais absolutamente imorais. Não importa a causa da qual falem, evoquem ou usem como máscara (direitos humanos, civis, crianças…), essas questões são tomadas exclusivamente pela utilidade que tenham para promover a agenda política das mídia-empresas, de jornalistas e outros empregados daquelas mídias-empresas, para influenciar a opinião pública a favor daquela agenda, e, nesta nossa região, para induzir as massas a apoiarem a intervenção de países estrangeiros, seja intervenção militar ou política. Quanto a isso, os veículos e profissionais das mídias-empresas já não têm qualquer credibilidade.

Basta ver o que se passa nos EUA, onde está em curso uma verdadeira rebelião contra as mídias-empresas e veículos dominantes, porque mentiram e continuam a mentir aos seus próprios consumidores leitores e telespectadores. Podemos dizer que a opinião pública ou as populações no Ocidente absolutamente ignoram o que verdadeiramente se passa aqui em nossa região, mas sabem, pelo menos, que os veículos e empresas de mídia e os políticos cooptados por elas mentem aos cidadãos para promover a agenda pessoal individual deles mesmos e seus interesses exclusivos.

Por isso não acredito que os veículos da mídia dominante ainda consigam que o público acredite no que vê noticiado. Por isso também é que aqueles veículos estão tendo de lutar para sobreviver no Ocidente, por maior que sejam a experiência deles e os meios e o dinheiro com que sempre contaram. Mas não têm mais qualquer credibilidade. Nenhuma empresa de mídia sobrevive se tiver credibilidade zero. E as empresas de mídia no Ocidente não são transparentes. E já ninguém acredita nelas.

Por isso aquelas empresas estão sendo empurradas para as atitudes mais acovardadas, por exemplo, de censura. Uma rede como a sua [RT] inspira medo às concorrentes, porque pode expor a verdade e a notícia verdadeira acaba por desmascarar as manipulações de que são vítimas os cidadãos. Daí as reações destemperadas que temos visto.

Por exemplo, a agência de notícias Reuters citou “Amaq”, que é o órgão de propaganda dos terroristas do Isis, no ‘noticiário’ sobre o cerco de Palmira.
Isso mesmo.

O senhor acredita que contribuam para dar legitimidade aos terroristas, citando os veículos deles?
Mesmo que não citem as agências de notícias dos grupos terroristas, os veículos ocidentais adotam sempre a retórica dos terroristas. Mas se a senhora analisar o aspecto técnico do modo como o Isis se apresenta e se autopromove desde o início, em seus vídeos, atualidades, nos noticiários regulares deles em geral e nas suas ‘relações públicas’, as técnicas são apuradíssimas, são técnicas ocidentais. Vale a pena observar. São muito sofisticados.

Como se compreenderia que alguém que seja caçado, sitiado, desprezado em todos os cantos do mundo, atacado por aviões e bombas, que o mundo inteiro quer expulsar para bem longe de cada vila à qual o terrorista chegue, como é possível que grupos desse tipo de pessoas possam ter comunicação tão altamente sofisticada… a menos que contem com o máximo apoio disponível, das tecnologias mais modernas. O fato crucial, em minha opinião, nem é que o Ocidente use como fonte a agência de notícias dos terroristas, mas o fato de que o Ocidente adote o ponto de vista dos terroristas para observar o mundo; às vezes diretamente, às vezes indiretamente.

Donald Trump assumirá em poucas semanas suas funções de presidente dos EUA. O senhor mencionou os EUA várias vezes nessa entrevista. O que o senhor espera do novo governo norte-americano?
A retórica do candidato durante a campanha foi positiva no que tenha a ver com atacar o terrorismo, que é hoje nossa prioridade. Nenhuma outra coisa tem a mesma prioridade, e, portanto, só comentarei esse aspecto, o resto são questões norte-americanas, digamos, questões internas que não me dizem respeito.

A questão, portanto, é saber se Trump terá o desejo ou a capacidade de pôr em prática o que disse. A senhora sabe que a maioria dos veículos da mídia-empresa dominante e das grandes empresas, os lobbies, o Congresso, até alguns membros do próprio Partido Republicano opõem-se a ele. Querem cada vez mais ampla hegemonia, cada vez mais conflitos com a Rússia, mais ingerência em diferentes países, querem derrubar governos e o que sempre se viu há muito tempo. O presidente eleito Trump disse coisas que andaram noutra direção. Se conseguirá manter a mesma postura depois de tomar posse, mês que vem? Essa é a questão. Não sei.

Se conseguir, creio que o mundo poderá ser diferente, porque a coisa mais importante no mundo hoje, como já disse, é a relação entre a Rússia e os EUA. Se ele caminhar na direção de melhor relação com a Rússia, a maior parte das tensões que hoje dilaceram o mundo serão reduzidas. É muito importante para nós na Síria, mas acho que não se pode adivinhar o que virá. Para começar, o novo presidente não tem história política, e, portanto, não se tem nenhuma referência para julgá-lo. Em segundo lugar, ninguém pode saber como irão as coisas no mês que vem, e dali em diante.

A situação humanitária na Síria é catastrófica e Madame Mogherini, chefe da política externa da União Europeia, nos disse que a União Europeia é a única entidade a fornecer ajuda humanitária à Síria. É verdade?
Na verdade, toda a ajuda enviada por países ocidentais era destinada aos terroristas. A verdade é essa. Estou sendo perfeitamente claro e transparente. Jamais país algum se preocupou com a vida dos sírios, se viviam ou morriam. Ainda hoje há várias vilas na Síria que continuam, até hoje, sitiadas por terroristas. Fizeram as coisas de modo que nada chegue àquelas pessoas, comida, água, seja o que for, todos os itens necessários à vida humana. Claro, os terroristas atacam todos os dias, tiros de morteiro, contra os moradores. E o que, afinal, a União Europeia enviou algum dia a esses sírios? Se se preocupassem tanto com vidas humanas, quando falam do aspecto humanitário, que não discriminassem. Todos os sírios são ‘humanos’. Mas não. É sempre o duplo padrão, a mentira que volta sempre, que recontam sempre, mentira ignóbil na qual já ninguém acredita. Não, não é verdade. O que a senhora ouviu é falso, é mentira.

Há quem sugira que, para a Síria, a melhor solução seria dividir o país, um país para os sunitas, outro para os xiitas, os curdos. É possível?
Essa é a esperança, o sonho do Ocidente e de vários países aqui da região, e não é novidade, nem começou com essa guerra. Já antes da guerra circularam até mapas em que se demarcava essa divisão e essa desintegração. Mas, se se examina a sociedade síria hoje, está mais unificada do que antes da guerra. É a realidade. Não digo para dar coragem a quem quer que seja, nem estou aqui falando ao povo da Síria. Estou falando sobre fatos.

Por causa das lições aprendidas da guerra, a sociedade síria tornou-se mais realista e pragmática e muitos sírios compreenderam os perigos do fanatismo e de todos os tipos de extremismo, não só o extremismo religioso: politicamente, socialmente, culturalmente, a Síria está ainda cercada de perigos. A nossa única possibilidade de sucesso está em nos aceitarmos uns os outros, em respeitarmos uns os outros. É o modo produtivo de vivermos juntos e ter um país.

Então, no que tenha a ver com a desintegração da Síria, se não se vê sinal de desintegração no seio da sociedade, entre as várias nuances e fatores constituintes da sociedade síria, no próprio tecido da sociedade síria, não se cogita de divisão. Não se trata de riscar uma linha num mapa de papel, quero dizer, ainda que se tratasse de país em desintegração, no qual as pessoas estivessem divididas. Vejam o caso do Iraque: ainda é um só país, mas, na realidade foi desintegrado. Não é o caso da Síria.

Esse assunto na verdade não me preocupa. Os sírios jamais aceitarão qualquer tipo de divisão. E falo da grande maioria dos sírios, porque não é ideia nova, assunto que tenha surgido nas últimas semanas ou meses. Pode-se dizer que é a grande questão que se disputa nessa guerra. E, depois de seis anos de dificuldades terríveis, posso assegurar que a maioria dos sírios jamais aceitariam qualquer tipo de ‘desintegração’ do país. Viveremos sempre como uma Síria una e coesa.

Como mãe, partilho a dor de todas as mães sírias. Falo das crianças na Síria. O que lhes reserva o futuro?
É o aspecto mais perigoso de nosso problema, e não só na Síria, mas em qualquer ponto em que circule essa sombria ideologia wahhabista, porque muitos dos jovens nascidos e criados sob essa ideologia que chegaram à maturidade ao longo da última década, um pouco mais, uniram-se a gangues terroristas, por motivação ideológica, não por falta de família, ou de comida ou de esperanças. Muitos são filhos de famílias de espírito aberto, instruídas, famílias de intelectuais. Pode-se imaginar o poder de atração que o terrorismo tem.

O senhor acredita que o terrorismo arregimenta jovens com tanta facilidade, por causa da propaganda que o precede?
Exatamente. É ideologia extremamente perigosa, que não conhece fronteiras políticas ou nacionais. A Internet ajudou os terroristas com ferramentas de comunicação baratas, rápidas de muito amplo alcance. O terrorismo infiltra-se em qualquer família em qualquer ponto do mundo, seja na Europa, no nosso país, no seu país, onde decidirem infiltrar-se.

E é o que acontece.

A senhora vive em uma sociedade secular, eu vivo em uma sociedade secular, mas nada disso impediu que o terrorismo se infiltrasse. Qual a ideologia com potencial para fazer frente a essa onda? Há uma, só uma. Dado que o terrorismo construiu-se sobre uma leitura distorcida do Islã, é preciso recorrer outra vez ao Islã verdadeiro, ao Islã ancestral, sem distorções, ao Islã da moderação e da paz. Só assim se pode esvaziar a ameaça terrorista que pesa sobre todo o planeta. É a maneira mais rápida, digamos assim.

Se quisermos falar de um médio prazo e de um longo prazo, trata-se de saber em que medida se consegue fazer avançar a sociedade, o modo como as pessoas analisam, raciocinam e pensam, porque a ideologia wahhabista terrorista só funciona se se paralisa a reflexão, se se distorcem as vias do pensamento lógico e moral. Pode-se dizer que se trata de um algoritmo do espírito. Numa comparação com a informática, para ser mais claro: se se tem implantados pela educação e, também, pela religião, para os que creiam, bons sistemas para explorar e analisar o mundo, esses sistemas resistem à invasão por vírus daninhos.

Trata-se, portanto, de educação, das mídias, da ‘comunicação’ e da política, porque se se tem uma causa, uma causa nacional, e as pessoas perdem a esperança, não é difícil empurrar essas pessoas na direção do extremismo, que é influência ativa na nossa região desde os anos 1970, depois da guerra entre árabes e Israel, e o fracasso da paz em todos os aspectos (fracasso na reconquista do território palestino, usurpação da terra e dos direitos dos palestinos), cada vez mais desespero, o que serviu bem aos propósitos dos extremistas. Aí os wahhabistas encontram solo fértil para promover a ideologia deles.

Senhor presidente, agradeço muito por sua atenção e pelo seu tempo, e desejo paz e prosperidade, cada vez mais, ao seu país.
Muito agradecido pela visita.

A situação foi muito difícil, e faço os melhores votos de que tudo isso chegue logo ao fim. Muito obrigada.
Agradeço muito que tenham vindo à Síria. Estou muito feliz por recebê-los.


Fonte: Resistência, do original no Russia Today